O paciente músico de sopro

Odontologia para músicos de sopro_orquestra de sopro_blue
Iniciamos a publicação desse tema falando sobre a inclusão da Odontologia para músicos de sopro na especialidade Odontologia para Pacientes Especiais, citando o trabalho do dentista Alexandre de Alcântara, dedicado á área desde 1995. Agora nesse texto Dr. Alexandre apresenta o perfil do paciente músico de sopro, para que técnicos e dentistas entendam as implicações de seus trabalhos.  

Existem diversos tipos de instrumentos de sopro, entre eles estão o trompete, saxofone, oboé, flautas, tubas, trombones, entre outros. Em todos eles o músico busca encontrar uma forma precisa para que o ar seja direcionado para dentro deste instrumento, permitindo que este ar seja transformado em notas. Essa busca tem como aliadas a boca e suas estruturas anexas, onde os músculos têm papel de destaque. O equilibrio muscular durante a emissão deste ar é fundamental para que a musculatura não seja sobrecarregada e por sua vez não implique em perda de performance. O deslocamento de mandíbula, as distonias, o contato oclusal (mordida) em desequilíbrio e mesmo o bruxismo poderão causar ao longo do tempo dores e dificuldade para o músico executar os movimentos ao tocar.   A observação criteriosa por um cirurgião-dentista da relação entre essas estruturas poderá prolongar a carreira de um músico de sopro, assim como de cantores, locutores, entre outros.

A posição dos dentes e seus formatos também estão diretamente ligados ao desempenho do instrumentista, pois estes contribuem para o trajeto do ar em direção ao instrumento causando menor ou maior atrito do mesmo durante a execução. Até mesmo uma alteração em sua estrutura e forma pode interferir drasticamente no alcance das notas. Por esse motivo esses profissionais dependem de um estudo detalhado antes do início de qualquer tratamento direcionado a eles. Devido à influência direta no resultado profissional do paciente, é muito importante que o cirurgião-dentista observe o músico tocar e analise não só os dentes, mas todo o movimento muscular e postural que o mesmo faz ao exercer sua atividade.

As avaliações variam de acordo com o instrumento de sopro, e como exemplo cito o saxofone onde o músico segura a parte superior da boquilha com os incisivos superiores e equilibra a palheta com o lábio inferior retraído para dentro da boca, sobre a incisal dos dentes inferiores.

embocadura - musicos de sopro

A embocadura é a área bucal (músculos e dentes) usada pelo músico para apoiar o bocal, boquilha, palhetas ou mesmo ao soprar para uma flauta transversa, onde o ar sai da boca  em direção ao bocal, sem o apoio do mesmo sobre os dentes e músculos; como quem sopra o bocal de uma garrafa.


A maneira de embocar instrumentos de sopro varia para cada músico, dependendo de toda sua estrutura bucal. Os bocais possuem diversos tamanhos e em todos o resultado é um “sanduíche de lábios”, cuja pressão frequente e constante destes lábios contra a face frontal (frente) dos dentes pode ou poderá vir a causar lesões com o passar do tempo.

odontologia para músicos de sopro_embocadura

Como sempre falo, a diferença no tratamento para músicos é o enfoque dado. Ou seja, nem sempre o que o dentista indica como tratamento é o adequado para músicos. O grande link que o cirurgião-dentista e o tpd devem ter ao atender um músico de sopro é esclarecer este paciente que a sua saúde bucal poderá fazer com que ele toque por mais tempo e em alguns casos, que ele até toque melhor. Geralmente um músico de sopro inicia seus estudos entre sete e oito anos e só para quando não consegue mais tocar. Este grande período de tempo faz com que o clinico entenda suas necessidades bucais associando-as à faixa etária. Exemplo: um músico iniciante poderá fazer qualquer tratamento ortodôntico porque entenderá que o mesmo o beneficiará no futuro, e terá tempo para a adaptação. No músico idoso, dependendo do caso, ter dentes e próteses na boca que permitam que ele toque em pequenos eventos ou por lazer já será bastante satisfatório. Já um músico em plena atividade, ganhando seu salário e seu sustento numa orquestra sinfônica optará por “mexer” o mínimo possível em seus dentes, com medo de perder sua embocadura.

No próximo texto vou abordar como é realizado o atendimento ao paciente músico de sopro, o que deve ser analisado no consultório e como fazemos esse trabalho.

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Essa área é maravilhosa, temos a chance de unir a música à odontologia e auxiliar profissionais sopro-instrumentistas no tratamento adequado à sua saúde, unindo estética e funcionalidade. Escrevi em texto anterior aqui no Blog da APDESPbr como iniciei o meu trabalho com esses profissionais até o momento em que conquistamos o reconhecimento deles como pacientes especiais. Se você ainda não leu, confira o texto Odontologia para pacientes especiais. E até breve.

 

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18 respostas a O paciente músico de sopro

  1. Fernando Ribeiro disse:

    O meu nome é Fernando Ribeiro, trompetista e professor de trompete em Portugal, publiquei um livro em maio de 2012 ” Embocadura do Trompetista”, AVA Musical Editions, que retrata alguns casos de alunos com problemas relacionados com a ortodontia, sobrecarga muscular de uma das faces e deficiente posição da embocadura. Apesar de defender que a ineficácia na performance, particularmente do trompetista, se deve essencialmente à colocação da sua embocadura, equilíbrio muscular e quantidade de “carne” contida dentro do bocal enquanto executa o seu instrumento, porém, atribuo bastante importância a este tema defendido por V/ Ex.ª.
    Cada vez mais médicos se interessam por este tema que afeta, provavelmente, seis em cada dez músicos (talvez mais!), muito embora estas anomalias somente se manifestam no músico após diversos anos de prática.
    Parabéns pelo trabalho!

    • Obrigado Fernando Ribeiro pelo incentivo.
      O debate sobre o tema é muito importante, justamente para que um maior número de profissionais da saúde, cirurgiões-dentistas e TPDs se disponham a pesquisar e entender o músico de sopro e seus diversos instrumentos. Fiquei interessado no seu livro e espero que ambos possamos contribuir para o desenvolvimento de nossas áreas.
      Dr. Alexandre de Alcântara

  2. Fantastic blog post.Really looking forward to read more. Will read on…

  3. Darlan Hilário disse:

    A respeito dos instrumentos de palheta; toco saxofone há aproximadamente 11 anos, e há algum tempo tenho sentido meu maxilar estalar muito ao acordar e também durante o dia todo, tem vezes que este estalo dói. Consultei alguns professores sobre a minha maneira de embocar e estava tudo certo, será que o fato de roer as unhas estarei provocando isso ?

    • Boa tarde Darlan. O hábito de roer unha não acredito que esteja relacionado aos estalos ao acordar. Estes estalos normalmente estão ligados a ATM(articulação temporo mandibular), deslocamentos da mandibula e bruxismo(aperto ou ranger de dentes) enquanto dorme. abraços

  4. roberto bezerra disse:

    eu ntoco trompet e mora em sao paulo em sao bernardo do campo sp e queria saber se existe algum profissional com essa tecnica por aqui o mais perto possivel

  5. clarinet disse:

    Olá. Ótimo texto sobre instrumentos de bocal. Já estudei trompete durante alguns anos mas hoje sou saxofonista e clarinetista e também gostaria de saber um pouco mais a respeito dos reflexos odontológicos da embocadura dos instrumentos de pallheta . Parabéns pela iniciativa de abordar uma área tão escassa de informações.

  6. Marcelo Eterno Alves disse:

    Olá.
    Mais um vez como já havia comentado
    Fico satisfeito em ver pessoas especializando em áreas bem específicas
    E a embocadura é uma dessas pois precisamos de um profissional que saiba
    Profundamente até para poder dar diagnóstico tratamento e mudança de embocadura.
    Outra área que ainda espero que outros profissionais da Medicina poderia especializar é a da respiração para músicos e sopro.
    Parabéns

  7. Felipe Echenique disse:

    O trompete pode entortar os dentes ?
    Já usei aparelho 2 vezes pois meus dentes dá frente entortavam para fora. Já faz mais de 3 anos que retirei o aparelho e ainda utilizo a contenção apenas para dormir.
    Grato!

  8. André Correa disse:

    Prezado Alexandre,
    Grato por esse espaço para que possamos relatar nossos hábitos.
    Sou saxofonista e estou preocupado com a estética dos meus dentes, fui em um especialista e o mesmo relatou que tenho problema de grau 3 (não sei exatamente o que significa, porém, ele falou que é passível de cirurgia no céu da boca), não sinto dores no maxilar nem estalos, muito menos ATM. Estou interessado em saber qual seria esse procedimento e se posso voltar a tocar, uma vez que dou aulas de sax e toco em bandas.

  9. Ana Sara da Silva Garcia disse:

    O meu dente precisou de fazer tratamento de canal, devido a trauma causado pela Clarinete, e agora estou com medo de tocar novamente.

  10. Vitória Lissa disse:

    Olá. Sou diagnosticada com ATM mas nunca fiz o tratamento. Eu posso aprender a tocar um instrumento de sopro como a flauta transversal? Se sim, devo fazer o tratamento antes ou durante o aprendizado?

  11. Amanda disse:

    Olá!
    Estou interessada em aprender flauta transversal, e por isso queria saber um pouco mais sobre a sua ação nos músculos da face (lábios) e arcada dentária. Seria possível?
    Desde já obrigada!

  12. Alexandre disse:

    Olá boa tarde!!
    Meu nome é Alexandre e eu toco Trompete a mais de dez anos.
    Algum tempo pra cá, eu venho tocando e quando eu estou estudando, eu sempre furo meus lábios inferiores com o dente. Gostaria de saber disso. pq minha embocadura estar correta. Por disso?

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